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Dados do colunista

08/05/2012 - AS DORES DO MIN. PASTORAL - I

TEMA GERAL: “As Dores do Ministério Pastoral (I Parte)”
TEMA ESPECÍFICO: “Refletindo Sobre o Sofrimento”
Texto Bíblico: Salmo 51
08/05/2012 – Retiro da OPBB/FLU (Rio Bonito/RJ) - David Baêta Motta

CONSIDERAÇÕES INICIAIS
1) Saudações ao amado presidente da OPBB/FLU, a todos os colegas, meu reconhecimento e gratidão pelo convite. Creio ser este um bom momento para mim de compartilhamento de experiências nas Dores do Ministério Pastoral, lembrando que elas não são exclusivas para o pastor, mas em toda e qualquer profissão ou áreas de vida as pessoas têm dores e sofrimentos.
2) Gosto muito de meditar sobre o Salmo 51, à luz do seu contexto maior. Ele tem lições fantásticas para todos nós que vivemos intensamente o ministério pastoral. Minha intenção maior é dividir esta palestra em algumas partes. Tenho aprendido que o “trabalho de púlpito” precisa ser algo “conversacional”. A época dos grandes discursos com citações impactantes e jargões emocionais tem dado lugar a um relacionamento pessoal, ou seja, um púlpito relacional e carregado de pessoalidade.
3) Na primeira parte pretendo fazer uma abordagem de caráter mais geral sobre a perspectiva do sofrimento e a forma pastoral de encará-lo. Minha perspectiva é bastante subjetiva. Quero falar dos sofrimentos internos, das pressões internas que vivemos e que nos afetam de modo profundo.
4) Na segunda parte pretendo fazer uma breve análise exegética do salmo 51, destacando os versos que melhor se enquadram na perspectiva desta palestra. O terceiro momento será de compartilhamento. Para isso, é necessário que você faça suas anotações durante as palestras. Nos meus dois tempos poderei solicitar sua participação a qualquer momento.

TRANSIÇÃO: Como devemos encarar as dores do ministério pastoral? Como encarar o sofrimento?

I – UMA PERSPECTIVA DO SOFRIMENTO HUMANO
1) Dizem que a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional (Carlos Drumond de Andrade). A dor é mais factual e dela se origina o sofrimento. Entretanto, podemos relativizar essa afirmativa quando Paulo afirma que o sofrimento não é opcional e sim algo do tipo instrumental na perspectiva religiosa.
2) Tanto a dor quanto o sofrimento são partes constitutivas de o nosso “moldar da fé”. Paulo disse que (Rm 8.17) “Se somos filhos, então somos herdeiros; herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, se de fato participamos dos seus sofrimentos, para que também participemos da sua glória.”
3) A Bíblia não explica e nem elimina o sofrimento em nossas vidas. Tenho dito que a relação de personagens de Hebreus 11 não deveria ser intitulada de “Heróis da Fé”, mas como “sobreviventes dos desertos”, dos sofrimentos. Todos eles tiveram suas noites escuras da alma.
4) Lidamos enquanto pastores com os sofrimentos dos outros, mas não aprendemos, em muitos casos, a lidar com o nosso próprio sofrer. Muitas vezes sofremos devido ao sofrimento. Achamos que somos vítimas das injustiças do mundo. Isto causa perplexidade. Foi o que aconteceu com o “impaciente Jó”. Leia Jó capítulo 3 e veja um homem impaciente quando “caiu a ficha” diante todo o sofrimento que como uma avalanche veio sobre ele.
5) No livro Quando Coisas Ruins Acontecem às Pessoas Boas, escrito pelo rabino Harold S. Kushner, o citado autor fala de uma “aleatoriedade” neste universo. Os problemas não escolhem pessoas específicas para se alojar. A dor e o sofrimento vêm sobre justos e injustos. Eles são inerentes ao ser humano. Faz parte da vida. Agora, não é fácil passar por eles. Não é algo fácil de administrar.
6) Creio que um dos grandes segredos da vida é saber lidar com os sentimentos comórbidos ao sofrimento. Lidar com a ira, o desgosto, o desprezo, o desapontamento, por exemplo, é algo que requer um exercício mental muito grande (lembrar da minha postura no CTI na 2ª cirurgia de fígado).
7) Isto me conduz a um provérbio que em muito me marca e é parte integrante de minha vida (Provérbios 16.32): Melhor é o homem paciente do que o guerreiro, mais vale controlar o seu espírito do que conquistar uma cidade.


II – SOFRIMENTO E ONIPOTÊNCIA PASTORAL
1) Preciso entrar por alguns momentos no cenário maior do meu texto básico. O jovem Davi, pastor de rebanhos, tocador de harpa e exímio na arte de usar uma “funda”, foi ungido por Deus para ser o futuro rei em Israel (1 Samuel 16). Ele saiu de sua zona de conforto e entrou na zona de risco. Diga-se de passagem, que qualquer pessoa que aceita a vocação divina entra na zona de risco ou “zona de fé”.
2) Sintetizando sua trajetória antes do trono, ele encarou a dureza dos irmãos, a ira de Saul a quem ele abençoara, tornou-se desafeto de muita gente, foi perseguido, entrou em depressão, viveu de deserto em deserto, tornou-se mercenário, desejou a morte e teve crises profundas em sua fé. (ler o Salmo 142 – A Mensagem)
3) Quando se tornou rei de todo Israel, unificou as tribos, criou um Estado, organizou o culto, conquistou vários povos e tornou-se senhor de um verdadeiro império. A época de Davi foi considerada a fase áurea em Israel. Jamais houve outra idêntica a ela. Às vezes, quando a gente está no auge da fama, nos momentos altos do ministério, temos a tendência de “relaxar” e, com isto, nos tornarmos alvos fáceis da tentação e dos sentimentos de culpa e vergonha depois do prazer.
4) Em 2 Samuel 11.1, 2, lemos que “um ano depois, na época em que os reis tinham o hábito de sair à guerra, Davi enviou Joabe, seus oficiais e todo o Israel com a missão de eliminar de uma vez por todas os amonitas. Eles cercaram Rabá, mas, dessa vez, Davi permaneceu em Jerusalém. Certo dia, Davi levantou-se do seu descanso da tarde e foi passear no terraço, e viu uma mulher tomando banho, e ela era muito bonita (...) Davi ordenou que a trouxessem”. (A Mensagem).
5) Além de certo relaxamento e ociosidade (levantou-se do seu descanso) vem também o sentimento de onipotência (Davi ordenou que a trouxessem). Não vou entrar agora em detalhes maiores sobre esse texto, mas o farei na próxima palestra. O que vale aqui é afirmar que a onipotência pastoral quando desmistificada causa um tremendo sofrimento àqueles que ainda têm certo grau de sensibilidade espiritual.
6) Por hora, preciso discorrer um pouco sobre dois tipos de pessoas, mais especificamente, dois tipos de pastores: (a) Os que naturalizam o pecado e (b) os que sofrem com os pecados cometidos. Creio que já deu pra notar que estou encaminhando a palestra para o lado das dores no ministério pastoral advindas de comportamentos contrários às metas e responsabilidades da vocação. Os que fazem parte do primeiro grupo classificatório encaixam-se na filosofia do “tô nem aí”. Os outros, ou seja, os do segundo grupo classificatório, sofrem quando caem nas astutas ciladas do diabo.
7) Em certo sentido, e em um primeiro momento, Davi se encaixa no primeiro tipo. Ele era o Rei/Pastor onipotente. Penso que em um dado momento, os pensamentos que povoavam a sua mente eram: Eu sou o rei/pastor, eu faço o que quero e quando quero. Ninguém tem autoridade acima da minha, por isso ninguém há de questionar meus atos. Certamente eu nunca serei descoberto, mas se for eu corto algumas cabeças e todos hão de se calar. Minha postura é muito séria. Ninguém vai desconfiar de mim.
8) A gente aprende que um abismo chama outro abismo (“Um abismo chama outro abismo, ao ruído das tuas catadupas; todas as tuas ondas e as tuas vagas têm passado sobre mim.” Salmos 42:7). O caos atrai mais caos. Davi tornou-se adultero e assassino. No seu silêncio seu senso de onipotência foi caindo e ele ficou desmascarado (Salmo 32. 3 e 4: Enquanto escondi os meus pecados, o meu corpo definhava de tanto gemer. Pois de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; minha força foi se esgotando como em tempo de seca.). É exatamente aí que vem uma profunda dor que repercute no reino (igreja) e na função, no ministério pastoral. A dor vinda do senso de onipotência desmascarada. Diga-se de passagem, que isto acontece com muita gente, até mesmo os que não sofrem com a síndrome da onipotência.
 

III – O SOFRIMENTO NA PERSPECTIVA SUBJETIVA – UMA QUESTÃO DE POSICIONAMENTO
1) Diz Eugene Peterson que “o sofrimento, por si só, não leva ninguém a um relacionamento mais profundo com Deus. O mais certo é que faça exatamente o contrário, desumanizando e tornando a pessoa cheia de amargura” (O Pastor Que Deus Usa, p.143).
2) Mesmo concordando em parte com o autor acima citado, penso que devemos ter posicionamentos em relação ao sofrimento e a dor no ministério pastoral. Isto para não nos tornarmos desumanos e amargos. Não devemos usá-lo para nos vitimar diante das pessoas. Volto a este tema um pouco mais à frente.
3) Minha questão, a qual abordarei com maiores detalhes na próxima palestra, é que, em um dado momento, Davi precisou se posicionar diante do sofrimento pelo pecado cometido. Retomo aqui o Salmo de Davi onde ele faz confissão e reconhecimento de culpa: “Enquanto escondi os meus pecados, o meu corpo definhava de tanto gemer. Pois de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; minha força foi se esgotando como em tempo de seca. Então reconheci diante de ti o meu pecado e não encobri as minhas culpas. Eu disse: "Confessarei as minhas transgressões ao Senhor", e tu perdoaste a culpa do meu pecado.” Salmos 32:3-5.
4) Em minha experiência pessoal com o câncer isto se tornou em uma realidade insofismável em termos de posicionamento. Passei pela fase da revolta e desapontamento com Deus. Por favor, não se assustem com isto, pois pessoas da Bíblia também tiveram momentos assim. Por exemplo, Jó no capítulo 3. Mas, há outros; veja, por exemplo, a forma como um salmista se dirige a Deus: Senhor, por que estás tão longe? Por que te escondes em tempos de angústia? (Salmos 10:1 NVI); ou ainda: Levanta-te, ó Eterno! Vais ficar aí dormindo? Acorda! Não importa com o que acontece conosco? Por que cobres o rosto com o travesseiro? Por que agir como se estivesse tudo bem? Aqui estamos, com o rosto na poeira, e uma corda no pescoço. Levanta-te, vem resgatar-nos! Se nos ama tanto assim, ajuda-nos! (Sl 44.23-26 A Mensagem).
5) Passei por aqueles momentos que às vezes pouca coisa ou nada acrescentam em termos de alívio da dor; ao contrário, acrescentam dor a dor, sofrimento ao sofrimento. São aqueles momentos do “por quê?” e “para que?”. Assim como Jó, eu vasculhava minha vida nos mínimos detalhes. Encontrei muitos pecados. Confessei-os ao Senhor. E!!!! o câncer continuou.
6) Não sei se você imagina o sofrimento de alguém que é perseguido diuturnamente pelo espectro da morte. Não sei se você já pensou a extensão da dor, na revolta, da decepção, na vontade de desistir, nos medos, nas angústias, no senso de culpa, e tantos outros sentimentos que acompanham a vida de alguém que se defronta com uma doença letal.
7) Mas, num dado momento, resolvi me posicionar diante do fato do sofrimento e do sofrimento vindo do fato. Disse para Deus: Uma vez que o Senhor não quer me responder, uma vez que o Senhor não está me aliviando deste fardo, então, usa essa doença para a tua glória. Aleluia! Ele tem usado, e como tem usado. E como ele me tem aliviado o fardo. É tudo uma questão de posicionamento.


CONSIDERAÇÕES FINAIS
1) Um dos episódios dos que mais me surpreendem na história de Davi é aquele em que ele entra na Caverna de Adulão e, de acordo com o que diz Charles Swindoll (Davi; Um Homem Segundo o Coração de Deus), Davi queria morrer naquela úmida e talvez fétida caverna. Ele estava exausto diante das implacáveis perseguições e sofrimentos. Ele estava a viver um grau severo de depressão. Ele olhava à direita e à esquerda e não havia ninguém que o acolhesse: (142.4 – A Mensagem): “Olho para a direita e para a esquerda: não há uma alma que se preocupe com o que acontece.”
2) Ele, em seu sofrimento como foragido de Saul, creio que circunstancialmente se esqueceu de que Deus o ungira para ser rei em Israel. Entra na caverna e deseja a morte. Deus age conosco dos modos os mais inusitados possíveis. De repente, entram na caverna uns 400 homens com uma diversidade de problemas (1 Samuel 22.1, 2).
3) Imagino a situação. Penso em Davi dizendo para Deus: O Senhor está brincando comigo. Isto não pode estar a acontecer. Eu estou a ponto de desfalecer com os meus problemas e o Senhor me manda essas pessoas cheias de problemas, angústias e revoltas para perto de mim! Minha imaginação continua e agora vejo o Senhor falando de alguma forma a Davi: Filho lidere esses homens. Ajude-os em seus problemas e você começará a resgatar algumas coisas que você perdeu nesse tempo.
4) Imagino o ânimo que repentina e miraculosamente tomou conta de Davi. O sofrimento dá lugar ao ânimo e Davi se tornou chefe daqueles homens. Mas a minha imaginação continua: Davi sai da caverna. Não havia uma banda de música esperando por ele, nem fogos de artifícios, nem relâmpagos e trovões nos céus. Lá fora estava tudo a mesma coisa: Os filisteus em seus calcanhares, Saul a persegui-lo sem tréguas. Mas, alguma coisa mudou. Não mudou por fora, mas por dentro: Davi sai da caverna de Adulão ainda como um foragido, mas agora ele tinha certeza de que era um “Foragido que Fora Ungido”. É tudo uma questão de posicionamento.
5) Encerro essa primeira palestra falando de algo muito pessoal. Semana passada, no dia 2/5/12, cheguei a casa depois de uma série de conferências tremendamente abençoada na cidade de Janaúba/MG. Ao chegar fui surpreendido com a notícia que uma nova lesão tumoral (câncer) brotou em outra parte do meu organismo. No dia seguinte sintomas do meu sofrimento começaram a povoar minha mente. Num dado momento “desabei” diante de Deus. Disse a Ele, entre tantas outras palavras, que ele parece ter se esquecido de mim. Terminei de orar e fui a internet ver emails e mensagens. Entro no FB e imediatamente recebo uma mensagem de alguém que até pouco tempo não sabia quem era. Ela disse literalmente: Amado irmão (Is 49.15). Lembre-se, Deus não se esquece do senhor. Ele quer, Ele pode e Ele vai abençoá-lo! Essas palavras não me saem da mente. Louvo a Deus pelos anjos de carne e osso que ele coloca à minha frente e ao me redor. Este é o Deus, o Deus que está presente nas dores do ministério pastoral.


 

 
 
05 de Julho de 2012, às 20:04
De: Leonardo
gloria

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